Saiu o semeador a semear... - Ildo Bohn Gass
Conforme a estrutura do evangelho segundo Mateus, os capítulos 11 e 12 descrevem a prática libertadora de Jesus de Nazaré, a partir da qual “os cegos vêem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (Mt 11,5). Essa prática provocou a oposição de autoridades que tentaram desacreditar Jesus e buscar uma forma de “levá-lo à morte” (Mt 12,1-2.14.24). No capítulo 13, Jesus ilustra essa prática com parábolas, cuja mensagem principal é revelar a força do Reino agindo como semente que fecunda a vida em meio a projetos em conflito. Parábolas são narrativas alegóricas, figuradas, e querem transmitir uma mensagem indireta através de comparações. Busquemos, pois, o sentido dessas figuras na parábola do semeador.
De um lado, o Reino é dom de Deus e não depende só de nossos esforços. A semente, a sua Palavra de vida, é lançada pelo próprio Deus. A ação do Espírito é como a energia do vento que sopra em todas as partes (Jo 3,8). É como a semente que germina por si só (Mc 4,26-29). E ainda, a força do Reino é comparável com a energia da semente de mostarda que, sendo “a menor de todas as sementes, cresce e se torna maior que todas as outras hortaliças” (Mt 13,32). Portanto, fazer parte da comunidade de Jesus é acreditar nessa graça de Deus que age em e através de nós.
De outra parte, acreditar nessa graça de Deus atuante em nós é uma postura de fé, que depende do nosso compromisso com o projeto de Jesus, enquanto o seguimos pelo caminho da justiça do Reino (Mt 6,33). Os frutos do Reino não dependem somente do dom de Deus, mas derivam também de nossa espiritualidade. A força do Espírito é como a chuva que desce das nuvens. Se ela cai no asfalto, ali dificilmente fará germinar vida. No entanto, se ela cair sobre a terra, tornando-a fecunda, fará brotar a vida de múltiplas formas. Para ouvir a voz do vento (Jo 3,8), para ouvir a voz do pastor e abrir a porta (Jo 10,3-4; Ap 3,20) é preciso fazer silêncio para entrar em sintonia com Deus. É a mais sublime forma de oração.
Seremos como a terra da beira do caminho quando ouvimos a palavra do Reino, mas não a compreendemos, pois logo vem o maligno e arranca a palavra semeada (Mt 13,4.19). O maligno é toda força inimiga da vida, adversária de Deus e que nos seduz, afastando-nos do caminho de Deus para colocar-nos sob a escravidão da riqueza (Mt 6,24). Como exemplos de coisas que impedem a compreensão do projeto de Deus e tentam afastar-nos do seu caminho, citemos o espírito do consumismo, do prestígio, do poder, que tenta fazer de nós pessoas alienadas, dirigidas por forças externas, impedindo a ação do Espírito divino que nos torna livres, uma vez que “o Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3,17).
Seremos como o terreno cheio de pedras (Mt 13,5-6.20-21), se ouvimos a palavra com alegria, mas logo desistimos por medo da tribulação e da perseguição de quem não quer aceitar o projeto da justiça do Reino para todas as pessoas. Nesse caso, não passamos de fogo de palha.
Seremos como o terreno entre espinhos (Mt 13,7.22), quando ouvimos a palavra, mas deixamos nos dominar pelas preocupações do mundo, pela ilusão da riqueza, por outros desejos egoístas, como o luxo, a vida fácil. Dessa forma, a palavra da boa semente não tem como produzir frutos, pois nos apegamos a falsas seguranças.
Por fim, seremos terra boa (Mt 13,8.23) quando ouvimos a palavra e a acolhemos, isto é, nos comprometemos com o projeto de Jesus. A semente germina, cresce e frutifica somente se receber a chuva do alto e se for acolhida em terra boa cá embaixo. A chuva do alto é graça, é dom. Mas acolher a semente para que dê frutos, isso está em nossas mãos.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
domingo, 10 de julho de 2011
O pálio episcopal: insígnia de serviço à unidade eclesial
O dia 29 de Junho, Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, é a data em que o Papa entrega o pálio aos novos arcebispos nomeados durante o último ano. O pálio, assim como o anel, a mitra ou o báculo, forma parte das insígnias que distinguem o bispo enquanto pastor das almas a ele confiadas numa igreja particular.
A missão do bispo está intimamente relacionada com a salvação que deve acontecer e realizar-se em cada um de nós. Nesse sentido, a transmissão do Evangelho se fez de duas formas: oralmente pelos Apóstolos, que transmitiram aquilo que tinham recebido de Cristo e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo; e por escrito, por aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração também do Espírito, escreveram a mensagem da salvação.
Uma vez que os primeiros apóstolos e discípulos de Cristo iam morrendo, para que o Evangelho fosse conservado íntegro e vivo na Igreja pelos séculos dos séculos, os Apóstolos deixaram os bispos como seus sucessores. Eles receberam o próprio ofício de mestres da parte dos apóstolos. Só desse modo a pregação apostólica se conserva devido à sucessão ininterrupta até à consumação dos tempos.
Esta transmissão viva é aquilo que chamamos de Tradição e é por meio dela que a Igreja peregrina mantém a sua unidade através dos laços visíveis da comunhão, a saber: a profissão duma só fé recebida dos Apóstolos; a celebração comum do culto divino, sobretudo dos sacramentos; e a sucessão apostólica pelo sacramento da Ordem.
São Paulo, em 2 Cor 5,20-21, sublinha e esclarece a função ‘vicária’ (aquele que faz as funções de) do ministério apostólico, assim como o seu caráter missionário. O teólogo Ratzinger o explica muito bem quando diz que esta autoridade do apóstolo deriva de Deus e consiste na expropriação do 'eu', isto é, em falar não em nome próprio. É pela sucessão apostólica que o Espírito Santo introduz alguns no ministério do sacerdócio.
O ministério dos presbíteros e dos bispos é, por sua natureza espiritual, idêntico ao dos apóstolos, mas se distingue em que aqueles são sucessores. O conteúdo do cargo apostólico e sacerdotal resume-se na palavra “apascentai”, ficando desse modo definido a partir da imagem do pastor. São Pedro define a Jesus Cristo como “pastor e bispo (epíscopos) de vossas almas” (1Pd 2,25), significando com isso que Cristo vê o homem na perspectiva de Deus, tem uma visão de conjunto, vê tanto os perigos como as esperanças e as possibilidades, vê a essência e o homem interior. Desse modo, Jesus é o protótipo de todos os ministérios episcopais e sacerdotais. Ser bispo significa assumir a posição de Cristo para que os homens encontrem a vida.
É neste conexto onde conseguimos compreender o sentido do pálio como insígnia episcopal, ou seja, como sinal distintivo que representa de modo concreto o primeiro grau da Ordem sacerdotal (o episcopado), o poder como serviço, a jurisdição, a prudência, o amor e a fidelidade do bispo à Igreja que lhe foi confiada. O pálio consiste numa faixa de lã branca de ovelha com seis cruces negras que o Papa e os arcebispos usam segundo uma tradição antiga. O arcebispo recebe-o das mãos do Romano Pontífice e o leva sobre si dentro do território da sua jurisdição nas cerimônias litúrgicas.
Na festa de Santa Inês (21 de janeiro), o Santo Padre faz a tradicional benção de dois cordeiros, cuja lã é usada para tecer os pálios dos novos arcebispos metropolitanos. A tradição da preparação dos cordeiros teve início em 1884. Todos os anos os dois cordeiros são levados para as freiras da Sagrada Família de Nazaré, que são responsáveis por esse trabalho, no seu convento de Roma.
O papa Bento XVI explicou numa ocasião que “o pálio é imposto sobre os Arcebispos Metropolitanos como símbolo da sua comunhão hierárquica com o Sucessor de Pedro no governo do povo de Deus. Ele é confeccionado com lã de ovelha, em representação de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e o Bom Pastor que vela cautelosamente sobre o seu rebanho. O pálio recorda aos Bispos que, como Vigários de Cristo nas respectivas Igrejas locais, são chamados a ser Pastores a exemplo de Jesus. Ele nos indica o Bom Pastor, que carrega nos seus ombros a pequena ovelha perdida e dá a vida pelo seu rebanho.”
Por Diácono Marcos Sabater
Paróquia Santa Maria dos Pobres
Jornalista (Rádio Maria e Arquidiocese de Brasília)
O dia 29 de Junho, Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, é a data em que o Papa entrega o pálio aos novos arcebispos nomeados durante o último ano. O pálio, assim como o anel, a mitra ou o báculo, forma parte das insígnias que distinguem o bispo enquanto pastor das almas a ele confiadas numa igreja particular.
A missão do bispo está intimamente relacionada com a salvação que deve acontecer e realizar-se em cada um de nós. Nesse sentido, a transmissão do Evangelho se fez de duas formas: oralmente pelos Apóstolos, que transmitiram aquilo que tinham recebido de Cristo e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo; e por escrito, por aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração também do Espírito, escreveram a mensagem da salvação.
Uma vez que os primeiros apóstolos e discípulos de Cristo iam morrendo, para que o Evangelho fosse conservado íntegro e vivo na Igreja pelos séculos dos séculos, os Apóstolos deixaram os bispos como seus sucessores. Eles receberam o próprio ofício de mestres da parte dos apóstolos. Só desse modo a pregação apostólica se conserva devido à sucessão ininterrupta até à consumação dos tempos.
Esta transmissão viva é aquilo que chamamos de Tradição e é por meio dela que a Igreja peregrina mantém a sua unidade através dos laços visíveis da comunhão, a saber: a profissão duma só fé recebida dos Apóstolos; a celebração comum do culto divino, sobretudo dos sacramentos; e a sucessão apostólica pelo sacramento da Ordem.
São Paulo, em 2 Cor 5,20-21, sublinha e esclarece a função ‘vicária’ (aquele que faz as funções de) do ministério apostólico, assim como o seu caráter missionário. O teólogo Ratzinger o explica muito bem quando diz que esta autoridade do apóstolo deriva de Deus e consiste na expropriação do 'eu', isto é, em falar não em nome próprio. É pela sucessão apostólica que o Espírito Santo introduz alguns no ministério do sacerdócio.
O ministério dos presbíteros e dos bispos é, por sua natureza espiritual, idêntico ao dos apóstolos, mas se distingue em que aqueles são sucessores. O conteúdo do cargo apostólico e sacerdotal resume-se na palavra “apascentai”, ficando desse modo definido a partir da imagem do pastor. São Pedro define a Jesus Cristo como “pastor e bispo (epíscopos) de vossas almas” (1Pd 2,25), significando com isso que Cristo vê o homem na perspectiva de Deus, tem uma visão de conjunto, vê tanto os perigos como as esperanças e as possibilidades, vê a essência e o homem interior. Desse modo, Jesus é o protótipo de todos os ministérios episcopais e sacerdotais. Ser bispo significa assumir a posição de Cristo para que os homens encontrem a vida.
É neste conexto onde conseguimos compreender o sentido do pálio como insígnia episcopal, ou seja, como sinal distintivo que representa de modo concreto o primeiro grau da Ordem sacerdotal (o episcopado), o poder como serviço, a jurisdição, a prudência, o amor e a fidelidade do bispo à Igreja que lhe foi confiada. O pálio consiste numa faixa de lã branca de ovelha com seis cruces negras que o Papa e os arcebispos usam segundo uma tradição antiga. O arcebispo recebe-o das mãos do Romano Pontífice e o leva sobre si dentro do território da sua jurisdição nas cerimônias litúrgicas.
Na festa de Santa Inês (21 de janeiro), o Santo Padre faz a tradicional benção de dois cordeiros, cuja lã é usada para tecer os pálios dos novos arcebispos metropolitanos. A tradição da preparação dos cordeiros teve início em 1884. Todos os anos os dois cordeiros são levados para as freiras da Sagrada Família de Nazaré, que são responsáveis por esse trabalho, no seu convento de Roma.
O papa Bento XVI explicou numa ocasião que “o pálio é imposto sobre os Arcebispos Metropolitanos como símbolo da sua comunhão hierárquica com o Sucessor de Pedro no governo do povo de Deus. Ele é confeccionado com lã de ovelha, em representação de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e o Bom Pastor que vela cautelosamente sobre o seu rebanho. O pálio recorda aos Bispos que, como Vigários de Cristo nas respectivas Igrejas locais, são chamados a ser Pastores a exemplo de Jesus. Ele nos indica o Bom Pastor, que carrega nos seus ombros a pequena ovelha perdida e dá a vida pelo seu rebanho.”
Por Diácono Marcos Sabater
Paróquia Santa Maria dos Pobres
Jornalista (Rádio Maria e Arquidiocese de Brasília)
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