Subsído para o estudo de Gn 1,1-2,4
(O 1º relato da criação)
William César de Andrade[1]
Quando essa narrativa foi escrita?
· Muito provavelmente durante o cativeiro da Babilônia (587-538 a.C). O povo judeu escravizado, distante de sua terra natal, sem reis, templo ou qualquer tipo de riqueza...só lhe restava esperança! Sacerdotes reúnem o povo começam a contar: “No princípio, Deus criou o céu e a terra...’.
· Este texto não se preocupa em afirmar ‘como’ tudo foi feito, não se preocupa com detalhes ou que possam prender os ouvintes no passado, se tudo o que existe tem um princípio, certamente também terá um fim ou uma finalidade. É o futuro que importa!
· A importância do tempo – os 7 dias – neste relato: “O relato está construído dentro duma sequencia de sete dias, mais precisamente seis dias de trabalho e um sétimo dia reservado para o descanso. Essa estrutura do relato das origens já sugere um conteúdo importante: como ouvintes ou leitores do texto, os israelitas devem procurar imitar o Criador, mantendo um ritmo de seis dias de trabalho e um dia de descanso. Se o Criador assim o fez quanto mais as criaturas conscientes devem fazê-lo!”[2]
· “Esta mistura de terra, água, sol e trevas, morte e vida, pecado e luta entre o bem e o mal, tudo isto quer ser uma tentativa de responder a muitas perguntas que nascem na cabeça da gente, mas, sobretudo, quer ser a fonte de esperança para todos aqueles e aquelas que vivem no desespero,na solidão, no sofrimento da marginalização da sociedade, dos sem-terra e sem casa, dos que vivem exilados na sua própria terra ou sem terra alheia.”[3]
· Em todas as culturas existem narrativas sobre o começo o mundo e de cada coisa ou ser que nele existe. Era assim em Israel, na Babilônia, no Egito, nas nações indígenas e africanas, que de algum modo, fazem parte do que hoje é o povo brasileiro.
· Na Babilônia se acreditava que o rei, qualquer rei babilônico, era filho do grande Deus – Marduc – e ninguém poderia arriscar a desobedecer tamanha autoridade. O próprio Deus Marduc criara o mundo ao destruir sua consorte Tiamat. Sol, lua e estrelas eram presenças reais destas divindades e o culto a elas era feito com pompa e a custa dos povos escravizados.
· Era fundamental para os escravos não esquecerem que eles eram, de onde vieram e a cultura a qual pertenciam. Fazer memória das narrativas do começo era reafirmar no que acreditavam, a identidade do povo e de cada pessoa (feitos à sua imagem e semelhança). Na Babilônia só os reis eram feitos ‘a imagem divina.
· A criação não é fruto do acaso, de fato ela ordena e dá sentido a tudo o que existe, incluindo o trabalho humano. É preciso hoje em dia reinterpretar os verbos dominar e sujeitar a partir da dimensão do cuidado e da corresponsabilidade que o ser humano tem diante de tudo o que existe no planeta Terra.
· Na grande festa do Deus Marduc, celebrada no início da primavera, durante sete dias eram retomados os feitos desta divindade (venceu deuses e deusas, criou o mundo, deu a seu filho – o rei – o poder de submeter povos etc). No 7º dia havia uma grande procissão e as pessoas eram aspergidas com água (para terem um ano bom e próspero). “Naquele dia, Marduc recriava o mundo, perdoando os pecados do povo e restabelecendo o curso dos astros. Neste dia, segundo o poema da Criação, Marduc fazia triunfar a justiça e protegia o direito do povo [babilônico].”[4]
Estrutura do texto:
1. Introdução (v.1-2)
2. Os primeiros dias da criação (1º dia – luz, v. 1-5); (2º dia – separação entre as águas e o firmamento , v. 6-7); (3º dia – terra seca, água e plantas, v. 9-13)
3. Refrão celebrativo: “E viu Deus que isso era bom” (v. 12)
4. O 4º dia da criação: Os astros são como lamparinas, não tem luz própria e não governam a vida e a salvação do povo, v. 14-19.
5. Refrão celebrativo: “E viu Deus que isso era bom” (v. 12)
6. O 5º dia da criação: os animais: marinhos, anfíbios e aves foram feitos e abençoados para que se multiplicassem, v. 20-23.
7. Refrão celebrativo: “E viu Deus que isso era bom” (v. 12)
8. O 6º dia da criação: mais animais são criados, mas agora seu habitat é a terra, e estão agrupados em selvagens, domésticos e répteis, v. 24-25; novamente aparece Refrão celebrativo: “E viu Deus que isso era bom” (v. 25); mas o dia não terminou sem que o ser humano surgisse (homem e mulher).
9. O humano, completamente em igualdade entre os dois gêneroa- v. 26-28, terá algumas tarefas: dominar os animais, sujeitar/trabalhar a terra, multiplicar-se. Sua alimentação, bem como a dos demais animais é vegetariana (v. 29-30)
10. Refrão celebrativo, com maior intensidade: “E viu Deus que isso era muito bom” (v. 31)
11. O 7º dia da criação: nasce a santificação do tempo – o sábado (2,1-3) como momento de agradecimento, bênçãos e encontro com Deus.
12. Conclusão da narrativa: “essa é a gênese de céus e terra” (Gn 2,4ª)
Questões para refletir
· Com que finalidade o autor coloca a criação dos seres humanos como os últimos?
· O que significa para nós o ‘descanso de Deus’?
· Cuidar da criação é um ato espiritual? Como ele pode ser praticado em nossa comunidade de fé?
[1] Roteiro elaborado em fevereiro/2011. O autor é biblista ligado ao CEBI-Planalto Central e trabalha atualmente no IMDH – Instituto Migrações e Direitos Humanos.
[2] HEIMER, H. Cênesis – casa comum – espaço de vida, cuidado e felicidade – encontros bíblicos Gênesis 1 a 11. São Leopoldo: CEBI, 2007.
[3] SARTOREL, P. L. e PAIXÃO, F. Esperança – bandeira pela construção da paz – círculos bíblicos sobre Gn 1-11. São Leopoldo: CEBI, 2007, p. 11.
[4] MESTERS, C. e OROFINO, F. A Terra é nossa mãe – Gênesis 1-12. São Leopoldo: CEBI, 2007.
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